Como a descoberta do sistema de hidratação profunda da pele, feita
por um prêmio Nobel, abriu caminho para uma revolução nos cosméticos
Carolina Romanini
Aposta
na ciência
Gonzaga no laboratório da Natura, em São
Paulo: 2 500 pesquisas para criar uma linha de hidratantes
Há
duas décadas, as pesquisas sobre a preservação da juventude
da pele proporcionaram a primeira revolução no mundo dos cosméticos.
À frente dela estava o ácido retinoico, que se provou eficiente
no tratamento dos sinais da idade mais tênues. Agora, graças ao trabalho
de um prêmio Nobel, uma segunda revolução se aproxima. Um
novo continente foi descoberto no planeta do conhecimento científico sobre
o metabolismo das células da pele. As perspectivas são extraordinárias
no campo da prevenção. O que se pode esperar das aplicações
práticas vindas da descoberta da ciência pura é, simplesmente,
manter por quase toda a vida a mesma aparência jovial que a pele apresentava
aos 20 anos de idade. Nunca a indústria de cosméticos esteve tão
próxima da ciência de vanguarda.
Durante um século,
desde que a polonesa Helena Rubinstein criou o conceito moderno de produtos de
beleza, mulheres e homens preocupados com a aparência tiveram recursos muito
limitados para manter a pele livre das rugas, da flacidez e das manchas trazidas
pelo processo natural de envelhecimento. Os cremes e as loções disponíveis
no mercado, à base de glicerina e outras substâncias gordurosas,
apenas mantinham a hidratação natural da epiderme nas horas seguintes
à sua aplicação. A prevenção de rugas ou a
manutenção de uma pele jovem e saudável ao chegar à
meia-idade, façanhas prometidas nas embalagens, ainda têm pouca correspondência
no mundo real. Os pesquisadores da área de cosméticos sempre souberam
por que é tão difícil evitar as marcas do tempo na pele por
meio de produtos químicos. Basicamente, porque não se sabia como
interferir nas camadas mais profundas da epiderme. Agora, como resultado de diversas
frentes de pesquisa científica, vive-se o início da mais notável
revolução já vista no mundo dos produtos de beleza. As empresas
de cosméticos anunciam que estão a um passo de encontrar fórmulas
químicas capazes de manter a hidratação nas camadas inferiores
da pele.
O ponto de partida para essa revolução
nos tratamentos de beleza é a descoberta do cientista americano Peter Agre
que lhe valeu o Prêmio Nobel de Química em 2003. Agre descreveu o
funcionamento do principal sistema de irrigação dos tecidos do corpo
humano. Ele é composto de canais formados por proteínas que atravessam
a membrana celular e permitem a entrada e saída de água. O pesquisador
batizou esses canais de aquaporinas. Os órgãos do corpo humano são
formados majoritariamente de água 79% no caso do coração,
76% no do cérebro e, na pele, 70%. Por isso, as aquaporinas são
indispensáveis para o funcionamento do organismo. Mas, como todo processo
bioquímico de manutenção da vida, a eficácia das aquaporinas
diminui com o passar dos anos, tornando os órgãos mais fracos e
vulneráveis. A diminuição no desempenho das aquaporinas da
pele a torna seca e enrugada. O grande salto que as empresas de cosméticos
estão prestes a empreender é prolongar o funcionamento perfeito
da aquaporina 3, específica da pele, por tempo indeterminado. Para isso,
elas têm várias estratégias. A principal delas é a
produção de cremes com proteínas sintéticas semelhantes
às naturais. "Saber como funciona cada elemento que compõe
a pele se tornou imprescindível para encontrarmos fórmulas cada
vez mais específicas para tratá-la, e a aquaporina foi um passo
gigante nessa direção", disse a VEJA o francês Lionel
De Benetti, diretor da indústria de cosméticos francesa Clarins,
de Paris.
Não apenas para a pele, diga-se. A descoberta
dos mecanismos de circulação celular de água e outras substâncias
nutritivas começa a produzir soluções para os mais diversos
problemas de saúde. Uma das mais esperadas é uma terapia que pode
manter os rins funcionando em padrão ótimo por quase toda a vida
de uma pessoa. Aos 85 anos, um ser humano normal tem a capacidade de filtragem
dos rins reduzida em média a meros 30% ainda assim se ele tiver
um organismo sadio. Pessoas que são obrigadas a tomar diariamente medicamentos
para doenças crônicas, como o diabetes, exigem mais dos rins. Elas
podem chegar aos 85 anos com o poder de filtragem renal de apenas 10% do normal.
A possibilidade de manter ou reativar os processos que ocorrem nas aquaporinas
é uma esperança para a pele perfeita e para o prolongamento da juventude
e do bem-estar geral do organismo.
Sob o número EP 1 885 477
B1, acaba de ser concedida na União Europeia a primeira patente de um produto
criado com base nas aquaporinas. Ela foi obtida por uma empresa dinamarquesa que
produziu com aquaporina uma membrana capaz de filtrar e purificar a água
nas condições mais adversas. O uso imediato vislumbrado pelos dinamarqueses
é em grandes usinas de dessalinização de água do mar,
o que, com a nova tecnologia, pode ser feito mais rapidamente e com mais eficiência
do que qualquer outro processo anterior. O ramo médico da empresa está
focado em aplicações que vão produzir soluções
para doenças renais e outras em que o problema é a produção
ou filtragem de fluidos no organismo.
Na cosmética,
a manutenção do bom funcionamento das aquaporinas através
das décadas é a principal arma da nova revolução dos
produtos de beleza, mas não a única. Os cientistas têm conseguido
avanços também em outras frentes na busca pela preservação
da pele jovem. A principal delas é a regeneração celular.
A técnica da finalização transepidérmica, atualmente
em fase de testes em vários laboratórios da Europa, procura retardar
a perda da capacidade de produção celular que se intensifica a partir
dos 40 anos. Moléculas de substâncias estimuladoras da renovação
celular, como o retinol, são introduzidas em uma única célula
da pele. A partir daí, as proteínas celulares se encarregam de levar
o elemento estimulador às demais células. A utilização
da finalização transepidérmica na regeneração
celular também pode se dar por meio dos chamados fatores de crescimento.
São proteínas naturais da pele que estimulam a produção
de novas células, principalmente as responsáveis pela síntese
de queratina e colágeno, substâncias que garantem a elasticidade
e a firmeza da pele. Prevê-se que os produtos que utilizam a finalização
transepidérmica cheguem às prateleiras das farmácias nos
próximos seis meses.
A nanotecnologia também
tem sido uma aliada poderosa no desenvolvimento da nova geração
de cosméticos. Com ela, é possível fragmentar a molécula
de uma substância ativa ao menor tamanho possível, o nanômetro,
e fazê-la penetrar facilmente em qualquer tecido. Já existem vários
produtos no mercado fabricados por meio dessa tecnologia. Entre os principais
estão os filtros solares, que garantem até 100% de proteção
contra a ação do sol. As moléculas fragmentadas, além
de penetrar mais profundamente a pele, têm também maior capacidade
de absorção, o que garante que o produto se espalhe de maneira mais
uniforme. Uma grande vantagem das nanopartículas é a capacidade
de penetrar as camadas da pele e o interior das células sem a interferência
dos receptores, as sentinelas da membrana celular. Os receptores são como
válvulas que têm como função selecionar o conteúdo
que chega até o interior das células. Para que uma substância
atravesse essa membrana, molécula e receptor devem se encaixar perfeitamente,
como duas peças de um quebra-cabeça. "Os ingredientes de um
cosmético funcionam como um gatilho. Eles atingem certos receptores na
epiderme, e isso produz uma reação em cadeia capaz de estimular
as células das camadas mais profundas da pele", disse a VEJA a americana
NiKita Wilson, vice-presidente da firma de cosméticos Cosmetech Laboratories.
O
conhecimento cada vez mais apurado da pele faz com que as novas linhas de pesquisas
dermatológicas lidem com uma quantidade muito maior de variáveis
do que no passado. Tradicionalmente, considerava-se a existência de apenas
quatro tipos de pele: normal, seca, mista e oleosa. Há quatro anos, num
estudo hoje amplamente aceito pela ciência, a dermatologista americana Leslie
Baumann, do Baumann Cosmetic & Research Institute, em Miami, propôs
que na realidade existem dezesseis tipos de pele. Cada um deles deriva de uma
combinação de quatro fatores hidratação, sensibilidade,
textura e pigmentação. Recentemente, descobriu-se também
que a idade biológica é fundamental para a escolha do tipo de tratamento
da pele. Até os 25 anos, o corpo se encarrega de produzir naturalmente
as substâncias que lhe garantem beleza e juventude. Cabe aplicar apenas
um hidratante simples e fazer uso do protetor solar com regularidade. Dos 25 aos
40 anos, a produção das substâncias responsáveis pela
juventude da pele começa a diminuir. É preciso usar hidratantes
mais intensos. Dos 40 aos 60 anos, a pele necessita de estímulos vigorosos
para continuar produzindo as substâncias que a mantêm. Recomenda-se
a utilização de cremes altamente concentrados para a prevenção
do envelhecimento. A ciência também reforça cada vez mais
a importância dos hábitos de vida na preservação da
juventude da pele. "É um conjunto de fatores que determina o viço
da pele", diz Daniel Gonzaga, diretor de pesquisa e tecnologia da Natura.
Na
corrida pela revolução dos novos produtos de beleza, a indústria
de cosméticos vem aumentando seus investimentos em pesquisas e também
na qualificação dos pesquisadores. A francesa LOreal, a maior
empresa de cosméticos do mundo, elevou seu investimento em pesquisas em
23% nos últimos cinco anos de 496 milhões de euros em 2005
para 609 milhões de euros neste ano. Os farmacêuticos, que no passado
eram os maiores responsáveis pela elaboração dos cosméticos,
são hoje minoria entre os Ph.Ds. e doutores que pilotam os principais laboratórios
do mundo. Na LOreal, dos 3 268 pesquisadores que trabalham em trinta
áreas dos laboratórios, 2 000 deles são Ph.Ds. em diversas
disciplinas. As principais empresas cosméticas, além de manter laboratórios
próprios, firmam convênios com as mais aclamadas universidades. Em
geral, leva-se entre cinco e dez anos para criar um produto. A Natura, para uma
única linha de hidratantes faciais a ser lançada nos próximos
meses, fez mais de 2 500 pesquisas, que incluíram desde o comportamento
do consumidor até testes específicos com os diferentes tipos de
pele das mulheres brasileiras. Diz o carioca Omar Lupi, presidente da Sociedade
Brasileira de Dermatologia: "A revolução definitiva na eficiência
dos cosméticos ocorrerá nos próximos dez anos, quando as
pesquisas genéticas básicas levarem à elaboração
de produtos praticamente customizados".
A pele lisa eterna
Lifting do
futuro
Pele artificial produzida na Bionext, em Curitiba: possível
uso
em tratamentos estéticos
A maioria dos princípios ativos atualmente adotados pela indústria
cosmética para aliviar as rugas associadas ao envelhecimento foi antes
usada como remédio contra queimaduras. Não será total novidade,
portanto, quando as peles sintéticas, hoje de grande utilidade nos hospitais,
passarem a ter aplicações estéticas. É uma questão
de tempo, apenas. Atualmente, em algumas terapias estéticas que envolvem
descamações mais radicais da pele, os dermatologistas têm
como recurso cobrir a área afetada com pele artificial. Enquanto a epiderme
natural se recupera do trauma, sua equivalente sintética, feita de celulose,
se encarrega de evitar infecções e de manter a hidratação.
O uso de peles feitas com tecido humano, porém, ainda não fornece
resultados estéticos satisfatórios. Diz Ronaldo Golcman, cirurgião
plástico do Hospital Albert Einstein, de São Paulo: "Ainda
não é possível substituir a pele natural por enxertos feitos
em laboratórios para fins estéticos porque essas peles não
têm a mesma qualidade. Elas podem se retrair ou apresentar pigmentação
diferente".
Existe hoje uma dezena de tipos de pele artificial
em uso nos hospitais ou ainda em fase de testes nos laboratórios. A pele
é um dos órgãos do corpo que mais sofrem rejeição
ao ser transplantados. Apenas gêmeos univitelinos podem doar a pele um ao
outro com baixo risco de fracasso. A pele artificial contorna esse obstáculo
natural. Ela pode ser feita com material sintético ou com células
humanas. No caso de queimaduras graves, as mais usadas são a de colágeno
e a de biocelulose. Esta é produto do metabolismo das bactérias
Acetobacter xylinum, que se alimentam de carbono e secretam fibras de celulose.
Depois de desidratadas, as fibras se transformam em membranas que lembram finos
papéis de seda. À medida que a nova pele vai nascendo, a cobertura
artificial se desprende. Gerardo Mendonza, da Bionext, fabricante de peles de
biocelulose no Paraná, explica: "A trama da pele artificial é
larga o suficiente para permitir a respiração dos tecidos, mas estreita
o bastante para impedir a entrada de agentes infecciosos".
Mulheres
principalmente, mas também muitos homens, com mais dinheiro do que senso,
têm pago nos Estados Unidos e na Europa mais de 1 000 dólares
por uma emulsão facial cuja matéria-prima viria de um laboratório
militar secreto na Rússia, onde os cientistas da defunta União Soviética
teriam produzido uma pele sintética quase perfeita. Desde 2005, sob o nome
comercial de Amatokin, é vendida no exterior uma linha de cremes antirrugas
com preço médio de 200 dólares que declara essa mesma e intrigante
origem. Isso tudo soa incerto. O certo é que logo as pesquisas sobre a
pele artificial vão abrir mesmo novos caminhos para tratamentos estéticos
com resultados radicais.
A luta interna contra os radicais livres
Quando
os cientistas começaram a desvendar com maior precisão os mecanismos
do envelhecimento da pele, surgiram duas frentes nas pesquisas sobre como preservar
a juventude por mais tempo. Uma levou aos cremes e a outros produtos de aplicação
tópica, característicos da cosmetologia. A outra, cujas perspectivas
eram igualmente promissoras, resultou em produtos de uso interno: compostos principalmente
de pílulas de vitaminas, proteínas ou sais minerais que, ingeridas,
ajudam a manter a pele saudável, eles receberam o nome genérico
de nutricosméticos. Os primeiros apareceram no início da década
de 90 e eram feitos à base de colágeno. Essa proteína presente
no tecido conjuntivo é determinante na sustentação e firmeza
da pele. Hoje, os nutricosméticos mais populares são fabricados
com betacaroteno, vitaminas A, C e E, zinco, colágeno, licopeno, isoflavona
e silício orgânico. Alguns desses componentes podem ser encontrados
em combinação numa só pílula. O principal objetivo
continua a ser o original: preservar e estimular a produção de colágeno.
A
maioria das substâncias é oferecida por frutas e legumes (o licopeno
está presente no tomate e a isoflavona na soja). Mas as pílulas
reúnem uma concentração de elementos ativos que dificilmente
se consome na alimentação diária. "A eficiência
é maior que a dos cosméticos tópicos porque os nutricosméticos
partem de dentro do corpo", disse a VEJA a engenheira química francesa
Patricia Manissier, diretora de pesquisa e desenvolvimento dos Laboratórios
Innéov, em Paris. Cada substância presente nas pílulas contribui
de determinada maneira no esforço de combater os radicais livres, átomos
de hidrogênio que ficam entre as células e que danificam as estruturas
proteicas que dão sustentação à pele, entre elas o
próprio colágeno. O stress, o cansaço, a má alimentação
e a exposição ao sol aumentam a quantidade dos radicais livres.
"O betacaroteno é uma das substâncias mais eficazes nesse processo,
formando uma camada de proteção na pele que reduz os efeitos nocivos
do sol", diz a dermatologista paulista Ligia Kogos. O licopeno, por sua vez,
responsável pela coloração vermelha dos alimentos, estimula
a produção de melanina e proporciona um bronzeado com aspecto mais
natural.
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PIONEIRA
Helena Rubinstein foi a primeira a produzir cosméticos específicos
para cada tipo de pele
Antes de qualquer preocupação estética,
a humanidade pintou o rosto por razões de saúde. Na pré-história,
a doença era percebida como efeito da magia e a maquiagem era uma tentativa
de afugentar espíritos perversos. O conhecimento sobre os detalhes da pele
só avançou depois da descoberta do microscópio, no século
XVI. O grego Hipócrates, que nasceu em 460 a.C. e é chamado de o
pai da medicina, sustentava que as doenças de pele poderiam ser, na verdade,
benéficas ao homem. As "crises felizes", como ele as denominou,
teriam o poder de purificar o organismo e não deveriam ser tratadas. Muitos
tratamentos de eficiência comprovada foram adotados graças à
observação da relação causa-efeito. Os antigos egípcios
pintavam o contorno dos olhos com uma pasta de carvão e chumbo. Era excelente
para evitar a infecção ocular causada por uma bactéria. Em
compensação, os metais pesados usados na mistura iam lentamente
intoxicando a população. Cleópatra, a última rainha
do Egito, tomava banhos com leite de cabra e passava óleos vegetais. São
ingredientes usados hoje, com aprovação científica, em cremes
hidratantes. Só no início do século XX, quando Helena Rubinstein
identificou quatro tipos de pele e criou cosméticos específicos
para cada um deles, a cosmetologia entrou na era da ciência.
RAINHA DO EGITO
Cleópatra acertou ao usar como hidratantes
o banho de leite e os óleos vegetais
POTES DA GRÉCIA ANTIGA
Cosméticos feitos de óleos e barro
Com reportagem
de Laura Ming, Alexandre Salvador e Nataly Costa