Projeto prevê demolição de quase um quarteirão na área do Passeio

O Globo - Rio de Janeiro/RJ - RIO - 23/02/2010 - 02:06:20

Grupo pede autorização para derrubar 17 imóveis; Iphan dá sinal verde

Luiz Ernesto Magalhães

Um quarteirão quase inteiro entre as ruas das Marrecas e Evaristo da Veiga, que integram o Corredor Cultural do Centro, pode ser derrubado para a construção de um novo centro comercial. O Fundo Opportunity de Investimento Imobiliário, administrado pelo Grupo Opportunity, comprou 17 sobrados e outros pequenos prédios na região em leilão público realizado em julho de 2009. Os imóveis pertenciam ao Banco Econômico, em processo de liquidação extrajudicial.

No início deste mês, o grupo deu entrada em pedidos de licença para a demolição dos prédios na Secretaria municipal de Urbanismo.

O Grupo Opportunity não divulgou detalhes do projeto.

Em nota, disse apenas que o empreendimento terá características arquitetônicas e urbanísticas que contribuirão para a revitalização do Centro, gerando empregos e renda para o município.

Limite para construção na área é de 20 andares Embora o terreno seja vizinho a bens tombados ou protegidos — como o Passeio Público, a torre de cem metros de altura do edifício Mestre & Blatgé (antiga sede da Mesbla, hoje Lojas Americanas), a Escola de Música da UFRJ e o antigo prédio do Automóvel Club do Brasil —, é permitido construir espigões ali. O limite para a área, segundo Augusto Ivan, ex-secretário municipal de Urbanismo, que participou da elaboração das regras de edificação na região, é de 57 metros ou cerca de 20 andares.

O projeto do Grupo Opportunity é o terceiro na região do Corredor Cultural tornado público nas últimas semanas. Mas, desta vez, sem tanta polêmica, porque a hipótese de construir prédios altos na área é prevista desde a década de 80, quando foi fixado o zoneamento.

— A legislação do Corredor Cultural para aquela área do Centro já prevê a renovação das construções, por não terem interesse histórico. Além disso, já existem imóveis mais altos no entorno da Rua Senador Dantas — disse Ivan.

A situação difere da dos outros dois projetos. No caso da nova sede da Eletrobras, por exemplo, a empresa tem interesse em construir um espigão próximo aos Arcos da Lapa, num terreno hoje pertencente ao governo do estado que teve os parâmetros urbanísticos alterados, para permitir a transação, ainda não concretizada.

Outro projeto, ainda em discussão na Câmara do Rio, requer a alteração dos parâmetros de um terreno vizinho ao Convento de Santo Antônio, que abrigaria um anexo do BNDES.

O superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Carlos Fernando de Andrade, disse que o órgão já foi sondado pelo Opportunity. Segundo ele, o despacho foi favorável. Carlos diz que a proposta apresentada é compatível com a preservação do Passeio Público: — O Centro do Rio se tornou atrativo para o mercado porque tem uma boa infraestrutura de transportes. Existe hoje uma demanda por escritórios no Centro do Rio, mas faltam prédios de alto padrão. Nesse ponto, a região do Porto do Rio ainda não se tornou atrativa porque não tem a mesma infraestrutura da região central.

Augusto Ivan tem uma avaliação semelhante: — Os polos siderúrgico e petroquímico em implantação no Rio vão estimular a abertura de novos escritórios para a prestação de serviços. Como na Zona Sul não existem áreas disponíveis e a Barra enfrenta dificuldades de acesso, o interesse pelo Centro aumenta.

A maioria dos imóveis a serem demolidos está alugada para o comércio. No passado, eles funcionaram como anexos à Mesbla, que faliu na década de 90. O primeiro prédio do conglomerado, na Senador Dantas, data de 1912, quando a firma francesa Mestre & Blatgé se instalou no Brasil. Inicialmente, era especializada no comércio de máquinas e equipamentos. Em 1924, os franceses transformaram a filial em empresa autônoma.

Quadra tem restaurantes, loja de motos e vidraçaria Na quadra que deve ser demolida, existem hoje três restaurantes de comida a quilo, uma concessionária de motocicletas, uma vidraçaria e um estacionamento rotativo, entre outros empreendimentos.

— Não sabemos direito o que vai acontecer. Quando alugamos o imóvel, na Rua Evaristo da Veiga, fizemos um contrato de locação de longo prazo — disse o gerente do restaurante Zabor, Maurício Soares Santos.

Um dos inquilinos mais antigos é a Duana Motos, concessionária na Rua das Marrecas: — Apenas na Rua das Marrecas, a empresa já está há 18 anos. Desde essa época, a gente ouve que um dia o imóvel poderia ser vendido. A empresa veio para cá após o fechamento da Mesbla Motos, que funcionava no mesmo endereço — conta a gerente de PósVendas, Glória Moreira.

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