5/3/2010
Prédios históricos vêm perdendo espaço para estacionamentos, shopping centers e grandes lojas
O Centro de Fortaleza caracteriza-se, sobretudo, pelo comércio. Os prédios centenários que o compõem estão repletos de recordações históricas, mas, ao mesmo tempo, muitos encontram-se vazios e desprotegidos.
Hoje, os antigos edifícios que ainda permanecem de pé vêm sofrendo um constante processo de depredação e destruição por parte da população e de proprietários. Grande parte deles transformaram-se em estacionamentos cobertos, lojas ou shopping centers, descaracterizando essa área, considerada uma das mais ricas em termos de memória sobre a formação de Fortaleza.
O exemplo mais recente é o Galpão do Empreendedor, que abriga a feira da Rua José Avelino. Lá, organizadores transformaram um dos espaços em estacionamento. A situação, nesse caso, foi agravada pelo fato de que, para dar acesso aos ônibus, toda a fachada do imóvel, na Rua Pessoa Anta, foi derrubada. O ato representa, segundo especialistas consultados, uma ameaça ao patrimônio histórico da Capital e está gerando grande preocupação na cidade.
O arquiteto Pepe Capelo revela que ficou surpreso ao passar pelo local e constatar que a fachada havia sido destruída, dando lugar a um enorme portão de ferro, onde funciona a entrada do estacionamento. Ele acredita que o principal prejudicado com tudo isso é o povo fortalezense, que perde mais uma parte do seu registro histórico.
Políticas públicas
O arquiteto acredita que faltam políticas públicas municipais para preservar esse conjunto. Do jeito que está, acrescenta ele, acaba prevalecendo o interesse dos proprietários. “É um processo que já vem acontecendo na cidade há muito tempo. A degradação do Centro começa com a sobreposição das fachadas por outras metálicas e vai até a demolição dos prédios”, reclama.
O arquiteto recorda que naqueles galpões funcionavam, no fim do século XIX e início do século XX, armazéns do antigo porto. Período, segundo ele, de grande florescência da arquitetura da Cidade de Fortaleza.
De acordo com o administrador do galpão, Martinho Batista Neto, o estacionamento foi construído há aproximadamente dois anos, com o objetivo exclusivo de acolher ônibus que trazem sacoleiros de outros estados do País.
Portão
Ele afirma que o imóvel não tinha uma fachada, apenas uma parede que estava, inclusive, comprometida. “Destruímos para colocar um portão, mas não considero que o muro fosse histórico. Eu tenho muito cuidado com isso. Não era uma fachada, mas sim uma parede normal”, diz o administrador do galpão.
Martinho Batista Neto garante, ainda, que pretende construir uma fachada nova para a feira na Rua José Avelino.
Qualquer imóvel vazio no Centro acaba se tornando um estacionamento em potencial. É o que constata Daniel Rodrigues, coordenador do Plano Habitacional do Centro, da Fundação de Desenvolvimento Habitacional de Fortaleza (Habitafor). Ele afirma que o fato ocorre, inclusive, em trechos nos quais a legislação não permite.
Tombamento
O calçamento da Rua José Avelino será submetido a tombamento na próxima reunião do Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Histórico e Cultural (Comphic), da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor), no dia 7 de abril.
O fato deve favorecer a resolução dos problemas e transtornos causados pela feira alocada naquele espaço. De acordo com a Coordenadoria do Patrimônio Histórico da Secultfor, o prédio em questão não está incluído na relação dos bens tombados pelo Município e que aquela era a área onde passavam os antigos bondes tendo, portanto, grande importância para a Capital.
AVALIAM ESPECIALISTAS
Processo de depredação é lento e contínuo
O processo de depredação a que vem passando o Centro de Fortaleza é uma situação bastante antiga. Para José Almir Farias, professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará (UFC), os edifícios daquela área perderam o seu valor e, como não há procura, os estacionamentos acabam sendo um bom negócio para os proprietários.
Como exemplo, a Rua General Sampaio que, nos anos de 1920 e 1930, era toda ladeada por benjamins e casarios, lembra Almir. Hoje, tomada por estacionamentos e totalmente descaracterizada. Com o processo de crescimento da cidade, ela se tornou paulatinamente em uma área comercial. “Muitas casas foram derrubadas para dar espaço a estacionamentos, fazendo com que a rua perdesse completamente a sua feição. Se não tiver controle, vão derrubar tudo, e ainda assim não vão resolver o problema do trânsito. Saímos do estacionamento a céu aberto, tipo curral, para espaços cobertos”, destaca.
O especialista afirma que esse processo de deterioração lento e contínuo representa uma grande ameaça à integridade do Centro, pois trata-se de uma demanda sempre crescente. “Quem vai ao Centro de carro não se incomoda, porque pode estacionar o mais próximo possível do seu destino, mas o custo para a cidade é altíssimo. Perde-se todo o vínculo de qualidade com o espaço”, diz.
Já segundo o historiador Christiano Câmara, o fortalezense não tem a menor noção do antigo, de preservar nada. Ele critica que, a troco de nada, derruba-se o tradicional. Se continuar assim, acrescenta, daqui a pouco não será possível mais conhecer a arquitetura da Fortaleza antiga.
“É como se a cidade tivesse nascido apenas hoje. Isso não existe. Em todas as capitais há a parte antiga e a nova”, protesta o pesquisador.
De acordo com o primeiro plano urbanístico da Cidade, desenhado pelo engenheiro Adolfo Herbster, em 1875, o Centro Histórico de Fortaleza compreende o quadrilátero situado entre as avenidas Dom Manuel, Duque de Caxias e Imperador, indo até o antigo porto da Praia de Iracema.
Apesar disso, a Secultfor esclarece que todos os bairros são históricos, pois são frutos de lutas travadas ao longo do tempo. Qualquer cidadão pode pleitear o tombamento de um bem, basta dar entrada no órgão.
Luana Lima
Especial para Cidade