Conexões globais são irradiadas pelas cidades

Valor Econômico - São Paulo/SP - ÍNDICE GERAL - 26/02/2010 - 01:08:10

Chico Santos e Francisco Góes, do Rio
Leo Pinheiro/Valor Vinod Tewari, da Índia: colaboração entre as metrópoles dos BRIC no desenvolvimento de infraestrutura, incluindo a urbanização das favelas

As metrópoles dos BRIC serão como "âncoras" de um futuro mundo multipolar, que deverá nascer do declínio dos Estados Unidos, e que terá Brasil, Rússia, Índia e China entre as suas economias líderes. É este o papel que a socióloga americana Saskia Sassen, criadora do conceito de "cidades globais", imagina para as grandes cidades dos quatro países nos próximos anos. "O projeto dos BRIC é o projeto do futuro, deixar para trás a velha geopolítica, os conflitos de fronteiras, para projetar o mundo multipolar", idealizou durante palestra no painel "Desenvolvimento Urbano - As Metrópoles dos BRIC", abrindo o segundo dia de debates do seminário "Uma Agenda para os BRIC", realizado esta semana no Rio.

Para a socióloga, não existe propriamente uma economia global, mas sim "uma série de conexões globais entre as cidades". Essas conexões estão relacionadas com as vocações de cada grande cidade mundial e de como elas irradiam essas especializações para outras partes do mundo. Saskia vê no Rio de Janeiro, por exemplo, vocação para eventos e serviços, sem prejuízo de existirem e se instalarem na cidade grandes indústrias que estariam mais próximas da vocação de São Paulo, o grande centro econômico, assim como Bombaim, a grande cidade indiana. Na China, Pequim é a referência global, embora Xangai seja o centro econômico, onde está a Bolsa de Valores chinesa.

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), disse na sua palestra que a cidade tem a oportunidade de tornar-se a metrópole global do Hemisfério Sul, entre outras coisas, por sua vocação para o que chamou de "indústria sem chaminé" (indústria do conhecimento) e por sua qualidade ambiental, também pela proximidade com São Paulo, a maior cidade da América Latina. "Hoje, temos consciência da complementaridade entre as duas cidades", disse. Paes propôs a criação de uma rede entre as grandes metrópoles dos BRIC para discutir "soluções urbanas e problemas em comum."

Roman Filimonov, vice-governador de São Petersburgo, maior centro industrial da Rússia, procurou destacar o esforço que a cidade vem fazendo para materializar o conceito de BRIC, começando pela realização, no ano passado, da primeira reunião de cúpula do bloco. A segunda está marcada para Brasília, em abril deste ano. "Há três anos seguidos fazemos em São Petersburgo eventos dos BRIC", ressaltou. Ele destacou também a identidade entre sua cidade e o Rio de Janeiro, afirmando que elas são as "capitais históricas" da Rússia e do Brasil e disse estar "ansioso" para construir uma "zona carioca" em São Petersburgo, "desde que não seja de favelas", brincou.

O indiano Vinod Tewari, professor da Universidade Teri, de Nova Déli, Índia, defendeu a colaboração entre as grandes cidades dos BRIC em aspectos como o desenvolvimento da infraestrutura, incluindo a urbanização das favelas. "Precisamos compartilhar as melhores práticas dos quatro países para ter êxito no desenvolvimento urbano", disse.

Tewari disse que das oito maiores metrópoles do mundo, três estão na Índia, uma na China e uma no Brasil. Nelas se verifica um alto índice de pobreza urbana, tema no qual as metrópoles podem cooperar. Na Índia, a população urbana é de 367 milhões de pessoas, mais de duas vezes a população urbana do Brasil, segundo números de 2010, mostrou Tewari.

Segundo ele, a pobreza é uma preocupação séria para todos os países BRIC, em especial para Brasil, Índia e China. Tewari disse que a estratégia da Índia se concentra em duas frentes. De um lado o país está dando acesso a microcrédito e investindo na organização de comunidades. De outro, tenta incluir no processo de planejamento pessoas que vivem em áreas ilegais. Um dos pontos fundamentais, segundo Tewari, é como legalizar essas áreas. Busca-se dar segurança às pessoas para que elas possam viver no mesmo local por um horizonte de longo prazo, o que permite ao Estado prover serviços públicos.

http://www.clippingexpress.com.br/ce2//?a=noticia&nv=CQOy00c-CtlYSG971mx3BA