Miriam Leitão
Juros e política
O Globo - RJ - ECONOMIA - 16/03/2010 - 08:54:15
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A reunião do Copom esta semana será a mais difícil do governo Lula. Houve outras que foram verdadeiros testes de autonomia do Banco Central.
Nesta, os rumores de que o presidente do BC pode se afastar para retomar a carreira política e as pressões contra a alta dos juros por causa do “calendário cívico” alimentam as dúvidas sobre o que acontecerá. Os analistas estão divididos. O Itaú Unibanco acredita que os juros vão subir 0,5 ponto percentual. O Bradesco também acredita em um aumento de 0,5 ponto percentual. A Tendências acha que os juros não vão subir em março, só em abril. A MCM também aposta que os juros vão subir só em abril, mas acha que o certo seria subir agora. O economista José Júlio Senna, da MCM, analisando novamente as atas dos momentos críticos, disse que o BC só muda a trajetória dos juros depois de uma ata forte. Foi assim em 2007, quando parou de reduzir os juros; em 2008, quando elevou as taxas; e em 2009, quando voltou a cortar. Por isso, acha que o BC vai elevar o tom nesta ata e subir juros só na próxima. Mas não acha que isso seja o melhor: — Pelo cenário atual, o recomendável seria subir juros já na quarta-feira. Do contrário, teremos 45 dias de piora das expectativas — disse Senna. O Banco Central do Brasil não é autônomo. Ele tem tido autonomia. Nos grandes testes, o Copom acabou decidindo — certo ou errado — mas contrariando pressões explícitas da Fazenda e outros setores do governo. Pelo manual das metas de inflação, há motivos para subir os juros: a inflação pelo IPCA acumulada em dois meses é de 1,54%, um terço da meta, e é o que o Banco Central, em dezembro, tinha projetado para todo o primeiro trimestre. A projeção da Ativa Corretora para o IPCA acumulado no trimestre é de 2%. O IGP-DI, que terminou o ano com deflação, em dois meses acumulou 2,11%. O Boletim Focus, que traz a projeção média do mercado, já prevê 5% de inflação no ano. Recentemente, o presidente do BC, Henrique Meirelles, disse que as decisões não são tomadas olhandose o “calendário cívico”. O texto dessa declaração foi preparado por ele mesmo, e não por assessores. Ele leu e não deu entrevistas. Era aquilo mesmo que queria dizer. No outro dia, no entanto, o ministro Guido Mantega disse que não era exatamente aquilo que Meirelles quisera dizer. Até hoje Meirelles tem de fato ficado imune ao calendário político, mas o que acontecerá se em seus planos estiver o de se afastar em abril para concorrer nas eleições deste ano? Há quem se pergunte se será possível ao BC iniciar um ciclo de aumento das taxas, o que significa elevar a cada reunião um pouco, apesar da tensão que isso vai causar no governo por causa da campanha eleitoral. Preços em alta sempre pioram o humor do eleitorado; juros crescentes sempre pioram o humor dos políticos, empresários e dos que dentro do governo acham que o Banco Central tem sido conservador demais. Esse será o dilema nesta e nas próximas reuniões do Copom. Se Meirelles sair, uma equipe mais dócil pode acabar evitando a elevação das taxas, e isso poderia realimentar a inflação. Se ficar, certamente continuará apostando tudo na manutenção da inflação baixa para manter a reputação de independente. O Itaú Unibanco acha que os juros sobem meio ponto, e já esta semana. — O Copom vai iniciar na próxima reunião uma série de elevações graduais da taxa. Acreditamos que serão quatro aumentos consecutivos, que começará por meio ponto percentual na próxima reunião e vai somar 2,75 pontos ao longo de toda a série. Ao fim desse movimento, na reunião de julho, a Selic estará em 11,5% ao ano — disse Ilan Goldfajn. Os que acreditam que o aperto virá mais à frente argumentam que a economia vai desacelerar naturalmente do nível anualizado que mostrou no quarto trimestre, de 8%. Esse ritmo não se sustentaria, porque foram retirados os estímulos econômicos de combate à crise, e o comércio mundial continuará fraco e servirá de freio ao crescimento do país. Além disso, a inflação deste começo de ano foi influenciada por fatores sazonais, como ônibus e escolas, que não vão afetar os outros meses. A Tendências consultoria acha que os juros não sobem agora em março, mas que em abril começa o ciclo de alta, que vai elevar em 2,5 ponto percentual os juros. — O crescimento do quarto trimestre do ano passado foi pautado pela reocupação da capacidade ociosa, dos incentivos ao consumo. Isso não vai se repetir ao longo do ano. Além disso, o mercado externo não se recuperou totalmente — explicou o economista Bernardo Wijuniski. Eu acho bem provável que o Banco Central aumente, mas apenas 0,25%, dando um sinal de que é o início de um ciclo de aperto monetário. Se esse ciclo ocorrerá e será longo, isso quem vai dizer é a queda de braço entre a política e a economia. Se o BC quiser subir juros, é preferível subir logo porque a campanha ainda não esquentou. Depois virá a Copa, em que o Brasil pouco se importará com juros. Se as taxas subirem agora, em setembro e outubro é que elas estarão derrubando a inflação. Será uma forma de atender, sem parecer que está atendendo, ao calendário cívico. |
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