Miriam Leitão
Dilema europeu
O Globo - RJ - ECONOMIA - 24/02/2010 - 08:50:11
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PANORAMA ECONÔMICO
Em cinco anos o governo grego — anterior ao atual — contratou em termos líquidos 75 mil funcionários públicos; manipulou estatísticas fiscais para enganar a Europa e expandiu gastos. A recessão derrubou a arrecadação, encurtou e encareceu a dívida. Um calote grego quebraria bancos. A crise, que era bancária, em 2009, está virando crise de país e pode voltar a ser bancária. O problema europeu pode trazer de volta a instabilidade do ano passado, se a ameaça de calote da Grécia não for contida. Há riscos de vários contágios. Estava conversando com o economista Armando Castelar Pinheiro, da Gávea Investimentos, e ele me contou que: — A dívida da Grécia está com vários bancos gregos, franceses, suíços, e até alemães. Além disso, os bancos gregos são responsáveis por grande parte do crédito na Turquia e Bulgária. Ou seja, se a Grécia não for socorrida, o búlgaro fica sem crédito, e bancos de outros países podem quebrar. A Grécia está por alguns dias. Nos últimos tempos houve um forte encurtamento dos prazos dos títulos gregos. Quando os títulos vencerem, o país terá que vender papéis para rolar a dívida. Mas para isso precisa ter crédito. Quem emprestaria para um país com mais de 100% de dívida pública e que terá que se endividar para cobrir um déficit de 12,7% do PIB em 2009? Para este ano, a previsão é que o país consiga derrubá-lo para 8,7%. Há duas saídas para a Grécia: ou a Europa ajuda ou o FMI socorre. Em qualquer dos dois tipos de resgate o país terá que fazer um baita ajuste fiscal que significará cortar gastos, congelar salário de funcionalismo, cortar gratificações de servidores, aumentar a idade de aposentadoria. O problema é que os gregos estão se comprometendo a reduzir o déficit público de quase 13% do PIB para 3% até 2012. Um resultado difícil de cumprir. Se não fizesse parte do euro, poderia desvalorizar a moeda. Essa é uma forma clássica de resolver o problema. Daria mais competitividade à economia, e reduziria a dívida. Mas a Grécia não pode fazer porque está no euro. A Alemanha, por sua vez, poderia simplesmente ignorar a crise grega, mas não pode porque faz parte do euro. O dilema europeu tem muitos lados. O continente tentou criar padrões fiscais comuns, mas na crise dos bancos, do ano passado, os países aumentaram muito seus gastos elevando o endividamento e déficit público. Da perspectiva da Alemanha, que é o trem pagador dessa promessa de que todos os recém-chegados seriam igualmente europeus, a questão é até que ponto o cidadão está disposto a pagar aos países da periferia da Europa. O sistema virou assim uma camisa de força para todos, e se for para preservá-lo é preciso fazer um Maastricht que seja levado a sério. — Há muito tempo o acordo de Maastricht, que estabeleceu limites para o déficit público dos países europeus, vem sendo desrespeitado. No caso da Grécia, como se viu agora, os dados foram manipulados para parecer que o problema estava sendo resolvido — disse Castelar. O temor é que a Grécia seja um rastilho de pólvora. O novo governo propõe congelar salário de funcionário, cortar gastos, aumentar idade da aposentadoria para tentar garantir um empréstimo europeu que o tire da situação de virtual default. Enfrenta protestos internos e ceticismo externo. Conseguirá fazer isso? Outro lado do contágio é simplesmente o de os credores irem para cima de países que, como a Grécia, têm dívida e déficit público altos. Se houver um calote grego, ele será o primeiro da história de onze anos do euro, mas não será o último. Vai afundar a crise de outros países europeus que também têm dívidas altas. A Irlanda fez durante anos um forte ajuste que reduziu muito sua dívida como proporção do PIB, mesmo assim corre riscos. — O problema é que a crise bancária fez a Irlanda gastar muito com o resgate dos bancos — conta Armando Castelar. Vários países europeus e os EUA ampliaram muito o déficit para resgatar os bancos da crise; em todos os países, houve queda de arrecadação por causa da recessão ou redução do crescimento. Isso fez com que os gastos aumentassem enquanto a arrecadação caía, o que leva a mais dívida e déficit. Hoje, a Alemanha tem uma dívida de 78% do PIB, França, de 84%, e Inglaterra, de 81%. E as projeções mostram crescimento. Pelos dados da OCDE, a idade mínima legal de aposentadoria de um grego é 58 anos. O governo socialista grego, que herdou toda essa confusão, está propondo elevar a idade média de aposentadoria de 61 anos para 63, em 2015. Na Alemanha, está passando de 65 para 67 anos. Não é fácil o dilema europeu. Se a crise não for contida, pode se espalhar, contaminando outras economias e trazendo de volta fantasmas já exorcizados. Se for contida, pode aumentar o descontentamento entre as grandes nações por terem que sustentar países pequenos onde, em muitos casos, os critérios do sistema social são mais generosos |
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