Dora Kramer

Autocombustão

O Estado de S. Paulo - SP - NACIONAL - 16/03/2010 - 09:19:33

Autocombustão O deputado Ciro Gomes já morreu eleitoral mentepelabocaalgumasvezes. Fez autocrítica, atribuiu os erros do passado à falta de maturidade para se desviar das “armadilhas”, anunciou adesão à serenidade e, desde então, só fez se desmentir, cedendo aos apelos do temperamento. Se nãoé isso, se Ciro sabe o que faz e apenas cumpre com racionalidade umroteiro previamente traçado, então está propositadamente caminhandopara foradoslimitesdocampo do jogo eleitoral, embora não se possa perceber qual seria o real objetivo. Nãosatisfeitoemdesqualificarsua candidatura ao governo de São Paulo, queconsidera“artificial”, desqualifica o partido que seria a principal legenda da coligação, dizendo que faltam nomes de qualidade ao PT no Estado. Quanto à candidatura presidencial, bate em Dilma Rousseff e bate no PMDB, ataca a política econômica, distribui tabefes como se não houvesse amanhã. Não que Ciro não tenha razão em suas diatribes. Detecta com propriedade os equívocos e as fragilidades morais e conceituais das forçasemdisputa.Degoverno e de oposição. Analisacomespecialprecisãooresultado das atuais pesquisas que, para ele, refletem a notoriedade dos pretendentes, nãonecessariamente a intenção firmedevotodoeleitor. Falasobreapolítica cambial o que a oposição pensa, mas manifesta com covarde discrição. Ocorre que a atividade de Ciro Gomes não é a análise política. É político e pretende continuar nesse ofício como candidato a presidente. Poderia até ter construído para sium nicho de atuação que levasse o eleitorado a reconhecê-lo como crítico arguto da cena, credenciado a promover mudanças se eleito. Ocorre que passou oito anos como aliado do governo Lula, um aliado fiel e silencioso ante episódios de frouxidão moral tão oumais graves que os fundamentos da aliança PT-PMDB que tanto o irritam. Apresentou-se à eleição presidencial na condição de linha auxiliar do governo, alegandoqueparaLulaseria estrategicamente muito mais interessante apoiar dois candidatos. Cedeuaoapelodopresidenteedeuas costasaoeleitoradoqueoelegeuprefeito, governador e deputado no Ceará, transferindo seu domicílio eleitoral para São Paulo. Umato de artificialismo político, segundo critério do próprio Ciro, mas entendido como um ato tático de quem joga em determinado time. Quando passaaatacarseuscorreligionários, tratá-los como seres indignos, despreparados,partícipesdeum“desastre”, incompetentes para levar adiante o País, inviabiliza qualquer tipo de sustentação partidária ao seu projeto e não transmite ao eleitorado uma mensagem com sentido. Égoverno?Éoposição?Éalternativo? Não se sabe. Não porque se cale, mas porque quanto mais fala menos se entende qual é o rumo. Vírus da paz. Otermo usado em Israel pelo presidente Lula tem dois sentidos, literalefigurado.Adefiniçãodamedicina para vírus é “substância orgânica capaz de transmitir doença”. No sentido figurado, “mal moral deconotaçãopatológicaoucontagiosa”. Aintenção foi benigna.Malignoéo desdém para com o significado das palavras do idioma pátrio. Dureza. O presidente Lula está vendolá foracomoavida émais difícilna convivênciacompaíses e sociedades acostumados a levar a sério o que dizem governantes e a cobrá-los por suas posições. Asubmissa reverênciaao poder e a cínicacondescendênciaaostidos comooprimidos é umcomportamento considerado adequado apenas em paísesdevigordemocráticoaindaincipiente. Lula está acumulando um passivo de cobranças ao qual não poderá dar o tratamento que reserva internamente às críticas que recebe no Brasil. Se resolver brigar com o mundo como briga com quem o contraria poraqui, arrisca-se atrocara admiração conquistada por explícita decepção generalizada. Ou pior, pela estrita irrelevância.Fiel ao velho estilo, Ciro ataca os aliados e caminha para fora do jogo eleitoral
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